quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Cidades Parnahybanas [Capítulo Cinco]

À claridade da lua, o quintal silencia-se por alguns minutos. Logo o vento sopra outra vez, farfalhando nas mangueiras. A paisagem que assoma à minha frente remete ao mito da solidez familiar. Sinto o impulso nostálgico que me prende a esta casa, onde morei os primeiros dezessete anos da minha vida, em Parnaíba. A segurança e reconhecimento do domicílio abrandam a inquietude do mundo lá fora. Tornam-a mais remota. O vento, agora mais forte, avança sobre os galhos mais altos, derrubando uma manga madura, que cai dentro do tanque, num baque seco. Na infância, o espanto que o impacto da queda provocava dentro de casa me aludia a rompimentos da existência conhecida, da continuidade diária, enchendo o espírito com o receio de mudanças ao alvorecer seguinte. Quando à noite então, na plenitude de seus mistérios... Buscava coragem para ir ao quintal e me certificar do que tinha acontecido, mas desistia. Preferia adivinhar na imaginação o verde-escuro da ramagem entre saltos ligeiros, pacífico com a natureza que integrava. Os troncos de ambas as árvores são sólidos e espessos. São eternos, encarnando a sabedoria de uma velhice secular, que indica nas mudanças ao redor a fragilidade de sua permanência. Rendo homenagem ao antepassado que as plantou, haja vista a casa pertencer à nossa família desde sempre. A casa, incrustada de felicidades e tristezas coletivas ou pessoais que foram se sobrepondo com o tempo ao seu inventário sentimental, me faz pensar no que vivi aqui, no que se passava no meu interior e exterior. Crenças e perspectivas. Costumava ler sentado a um canto da sala, dando forma a desejos e anseios que só viriam de fato bem depois. Mergulhava nos livros perscrutando uma vivência paralela, que competisse com o espectro que as tardes na casa me trazia, em sua presença assustadora, por indefinível. Foram os primeiros acordes de um plano que não supunha real o suficiente. Agora, a lua, ampla sobre o telhado, me recorda essas lições de partida. Afinal, uma década atrás, ficava na penumbra para mirá-la vistosa no céu, distraído nos nuances de uma idéia inventada: deixar tudo e rumar para o infinito da audácia, prendendo-se apenas ao necessário, cobiçando novas investidas, apropriando-me de outros lugares, mesmo que imaginários. Tantos anos depois aqui volto, alimentando a memória com minhas raízes. E tudo retorna como um fantasma a expor surpresas já sabidas, envelhecidas na melancolia do abandono. O que esse fantasma pensaria de mim agora? Como reagiria às minhas realizações, a tudo que efetivamente fiz? Súbito, sinto-me ensimesmado, constrangido. Talvez algo falte. Talvez não tenha alcançado minhas próprias promessas. É como encarar um espelho. A casa, santuário do passado, volta seus olhos para meu presente.

Um comentário:

  1. Ai mewdews, calma Jules hahahaha saí desparado nos textos e galerë não consegue companhar... Keep writing (:

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