quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Cidades Parnahybanas [Capítulo Um]

Por onde ando na cidade, nas ruas e calçadas, a sombra de meu passado ladeando a minha frente, como um cão farejando o perigo para proteger o seu dono, por onde passo e deixo no caminho um pouco de mim, que se prende nas paredes e no chão, uma marca, uma marca. Por onde respiro o ar morno da cidade, o aspecto cansado das praças, o jeito silencioso com que todos saem das lojas, o ruído vindo apenas do centro, a igreja matriz com a missa quase vazia, os carros desviando dos buracos, os buracos cada vez maiores, o céu cada vez mais escuro, a cidade cada vez mais dentro da noite. Por onde olho vitrines apagadas e manequins despedidos, bancas de jornal fechadas, bares se enchendo, empregados com farda apressados para pegar o ônibus, pegar o rumo de algum lugar, pegar o sossego longe das ruas desertas de movimento, apenas com outros funcionários alimentados pela mesma pressa, livres de sorrisos forçados, livres do emprego por uma noite, livres de uma parte de suas vidas. Correm todos para a segurança da luz do poste, da firmeza do poste, da urbanidade do poste, constante, acompanhado por outros postes, levando para a parada de ônibus. Por onde adivinho traços esquecidos da cidade que foi outrora, das reformas mal-sucedidas de vias públicas, das casas derrubadas, das casas construídas, dos prédios levantados, dos prédios abandonados, dos reformados, dos esqueletos de prédios, fantasmas que permanecem imóveis mesmo à luz do dia. Por onde então Parnaíba, a cidade que começa a adormecer.

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